O trem da educação

Vamos imaginar o primeiro dia de aula do 1º ano do Ensino Fundamental como uma viagem de trem. Imaginem todos os alunos daquela escola (ou daquela cidade) entrando nos vagões do trem, tomando seus lugares e se preparando para uma jornada que dura aproximadamente 12 anos. 

Não preciso lhe dizer que a lista de passageiros que entrou naquele primeiro dia será bem diferente da lista de passageiros que chegará ao ponto final, ao fim de todo o percurso. Alguns, após alguns anos, não dão conta das turbulências da viagem e descem em um ponto para esperar o próximo trem (que sai um ano depois). Nesses mesmos pontos, entram outros que estavam a espera do trem que havia saído um ano antes. Outros, já ao cabo de anos de viagem, simplesmente descem e não tomam mais outro comboio.

Este Observatório tem se dedicado a analisar alguns traços importantes da educação pontenovense no derradeiro período em que se encerra a educação básica e se inicia uma nova etapa: o ensino superior. 

Na analogia da viagem de trem, é como se o quarto final da viagem fosse o mais penoso e, cientes disso, muitos passageiros desertam. Aqueles que chegam ao ponto final ainda passam por desafios na estação até que o próximo trem chegue.

A evasão dos alunos no ensino médio é um motivo de preocupação para todos que estão envolvidos com a educação brasileira. Com a mesma raiz, mas com outro foco, também é pertinente a questão do acesso ao ensino superior. A mesma escola que não se mostra capaz de motivar o aluno, de entender as suas questões particulares e familiares (por exemplo, aqueles que precisam trabalhar para ajudar as famílias), também não os prepara para a entrada no curso superior.

Os textos já trazidos aqui neste Observatório já apontaram importantes sinais para entendermos esse processo em Ponte Nova:

  • Na última metade da década 2010-2020, houve uma diminuição significativa no número de candidatos ao Enem em Ponte Nova;
  • Dos candidatos ao Enem do município, menos de 35% tem idade entre 17 e 18 anos (idade em que os alunos estão concluindo o Ensino Médio);
  • Há um baixo percentual de candidatos negros no exame em Ponte Nova (menos de 20%). Não obstante, os candidatos negros são os que possuem maior percentual de abstenção, isto é, não comparecem aos dois dias de prova.

Diante desses levantamentos, é preciso acender o alerta para esta causa. Nos últimos meses, a situação da pandemia da Covid-19 ainda afetou muito os estudantes. Certamente, estudantes de escolas públicas e de escolas privadas foram afetados de forma muito diferente. E, também, como este Observatório já demonstrou, existia, antes da pandemia, já uma diferença significativa entre estes dois alunados, tanto no desempenho na prova, quanto no número de participantes.

O Enem realizado em janeiro bateu recorde de abstenção. Mais da metade dos estudantes não compareceram aos locais de prova. Quem são estes estudantes que não foram? Por que não foram? 

O desafio da educação nessa transição é estimular ao máximo aqueles que chegaram ao fim da primeira viagem (da educação básica), mas também não esquecer daqueles que saltaram do trem no meio da viagem. Nessa viagem, não tem passageiro mais importante. O sonho que se deve galgar é que a mesma lista dos alunos que começaram a viagem há 12 anos seja a mesma lista daqueles que chegaram. Sem perder ninguém. E para a próxima viagem, o trem que embarca para a Universidade, que todos tenham condição de partir. E aqueles que não partirem, que seja porque optaram não ir, e não porque não tiveram condições para tal.

Victor Barcelos Ferreira 

É graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal de Viçosa (2017) e Mestre em Administração Pública pela Fundação João Pinheiro (2020). Atualmente é Assessor Executivo da Diretoria de Políticas Públicas da Fundação João Pinheiro, trabalhando com monitoramento e avaliação de políticas públicas.

A imagem em destaque é proveniente do Pixabay. Agradecimentos a MichaelGaida.

 

One Reply to “O trem da educação”

  1. Avatar
    Vanice Giardini Guimarães Lourenço

    A pandemia agravou muito a situação educacional no ensino público no Brasil( vou me ater ao público que é meu foco de inquietude). A desigualdade se tornou( ou já era? )abissal!. Muitos passageiros já enfrentavam inúmeras intempéries no embarque, na viagem e na chegada, impostas pelas questões econômicas/sociais etc, etc, etc….O ensino remoto exige muitas habilidades específicas, inclusão digital, organização familiar etc, etc, etc….Ninguém a menos deve ser, tem que ser, o compromisso político em toda abrangência dos significado da palavra.Os dados acima são alarmantes, quem não se incomoda, não está vivo! Eu como professora há mais de três décadas ,sigo como diria Paulo Freire, conjugando na real o verbo “esperançar”, sentimento e atitude daqueles que não são puramente otimistas, e sim, fazem parte em qualquer escala da promoção da mudança, da abertura de caminhos possíveis para que uma Educação pública, laica, inclusiva e de qualidade seja ofertada a todos com equidade.

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