Mobilidade urbana em Ponte Nova: para além do imediatismo

Os problemas da mobilidade urbana em Ponte Nova e no Brasil ganham cada vez mais destaque em função dos prejuízos causados à cidade, aos munícipes e em face da crescente complexidade de sua solução.

Como revelado pela FOLHA em sua última edição, diversos fatores emergem na percepção popular enquanto raízes do problema: o excesso de veículos; a falta de investimento em meios alternativos, bem como sua baixa adesão; as mudanças nos fluxos do trânsito; os efeitos das obras; entre outros. 

Várias destas observações encontram convergência com o diagnóstico do Plano de Mobilidade Urbana de Ponte Nova, realizado em 2018. Mas de fato, o que vem sendo feito pela gestão? Quais são as prioridades e as lógicas adotadas nas ações? 

O transporte individual e os desafios para um modelo coletivo 

Um dos maiores problemas urbanos em Ponte Nova diz respeito ao excesso de veículos e à sua trajetória de crescimento ao longo do tempo. Entre 2006 e 2020, o município ganhou em média 1342 veículos por ano (sendo 638 automóveis), segundo dados da Senatran. 

Esta situação aponta para um processo de individualização dos meios de locomoção em Ponte Nova, acionando um alerta para a urgência de soluções que venham a condicionar o uso de novos meios, com a priorização do transporte coletivo. As contingências para esta questão, no entanto, apresentam a necessidade de se pensar soluções políticas de longo prazo, ainda que a conjuntura imediata seja desafiadora.

Crise e impasses no transporte público 

Nos últimos anos no Brasil, o transporte público vem enfrentando crises, falências e fortes críticas da população. Com a pandemia, uma série de medidas e restrições tiveram que ser implementadas, acarretando a queda da demanda e prejuízos para o setor. 

Como agravante, Ponte Nova se defronta ainda com incertezas em relação à prestação do serviço, em função de um processo de licitação suspenso no ano de 2021 e da indefinição sobre a questão. Aliado a isso, observou-se um processo confuso e pouco transparente, no que tange às discussões sobre os estudos para a realização do processo licitatório. 

Acentuando as incertezas, a população recebeu recentemente o anúncio feito pelo Demutran da queda do preço da tarifa para o mês de dezembro, passando do valor de R$3,10 para R$2,50. Este movimento significará o aumento de subsídio da Prefeitura à empresa que presta o serviço, visando “equilibrar a demanda” e “trazer mais passageiros”, tornando “mais viável a operação” e “reduzindo o subsídio gradualmente”.

Na lógica da gestão, a redução da passagem figura também como um incentivo ao uso do transporte coletivo, com efeito esperado na redução de veículos, sendo esta uma boa prática de mobilidade urbana. Neste ponto residem questões interessantes para o debate.

As evidências neste tópico (Rabay et alli, 2017), em análises das elasticidades de preço e renda da demanda, ou seja, da variação na demanda por transporte público em relação a variações no preço da tarifa e na renda do indivíduo, trazem dois achados úteis: 1) a tendência de baixo aumento na demanda de curto prazo em decorrência da queda na tarifa e 2) a tendência de menor demanda, quanto maior a renda do indivíduo.

Desta forma, tornam-se debatíveis os efeitos esperados pela medida, sobretudo, em sua dimensão de mobilidade urbana. Neste campo, valem ainda duas reflexões: 1) é factível supor que, na atual conjuntura, a queda na demanda por transporte público gerou a substituição deste meio de transporte pelo uso de automóveis? e 2) é razoável supor que a queda isolada da passagem venha a fazer com que as pessoas que utilizam automóveis migrem para o uso do transporte público? Estas são algumas questões relevantes para nortear o debate. 

Qualidade como variável-chave e a importância dos debates de longo prazo

É importante considerar que o debate sobre o transporte público vai muito além da redução tarifária. A demanda pelo serviço encontra-se muito associada à sua qualidade, envolvendo fatores como conforto, segurança, tempo de espera pelo ônibus e tempo gasto na viagem.

Logo, o incentivo efetivo ao uso do transporte coletivo, pensando no longo prazo, precisaria levar em conta outras medidas, como um aumento na frota, a renovação e a melhoria dos veículos (a exemplo da inclusão de climatizadores e a melhoria nos bancos). 

Isso faz com que a redução tarifária, realizada de maneira isolada, acabe apresentando um caráter puramente imediatista, que tende a ser ineficaz na decisão de utilizar o transporte público ao invés de outro tipo de veículo. O OPN observará de forma contínua a questão.

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