Volta às aulas presenciais nas escolas públicas de Ponte Nova: reflexões introdutórias

No final de setembro, os estudantes das escolas públicas ponte-novenses retornaram às aulas de modo presencial, após permanecerem desde março de 2020 em ensino remoto devido à pandemia de COVID-19. Enquanto na rede municipal, por orientação da Secretaria Municipal de Educação, permanece o modelo híbrido*, que contempla tanto alunos que continuam realizando seus estudos a distância, quanto os que se encontram presencialmente nas salas de aula; a rede estadual, seguindo determinação da Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais, aboliu a educação de forma remota e decretou a obrigatoriedade do ensino presencial a todos os alunos desde o dia 3 de novembro, com exceção daqueles que possuíssem fatores de risco para o coronavírus.

O cenário da educação na maior parte das escolas públicas brasileiras é preocupante, panorama semelhante quando refletimos acerca da situação das instituições das redes municipal e estadual em nossa cidade. Se antes da pandemia as desigualdades existentes entre os estudantes matriculados nas redes públicas e aqueles inseridos nas redes privadas eram evidentes, agora é possível perceber os reflexos da pandemia e do ensino remoto no alargamento desse abismo educacional.

As disparidades no acesso dos discentes e dos professores das escolas particulares e das públicas às tecnologias de informação, imprescindíveis a esse modelo de ensino (internet, smartphones, computadores), a precária infraestrutura de muitos colégios no que se refere à (in)existência desse aparato tecnológico, a situação de vulnerabilidade socioeconômica à qual estão submetidos muitos estudantes, a maioria matriculada no ensino público, e suas respectivas famílias (tendo em vista, sobretudo, o crescimento do número de desempregados e do custo de vida no Brasil, com o encarecimento de itens básicos à sobrevivência) são alguns dos elementos que nos ajudam a compreender os desafios enfrentados pela educação atualmente.

Os possíveis aumentos da defasagem no processo de ensino-aprendizagem e dos índices de evasão, em especial no ensino público, são problemas que precisam ser enfrentados com seriedade pela comunidade escolar e pelas Secretarias de Educação, em âmbitos municipal e estadual, haja vista os futuros impactos negativos no ingresso sobretudo de alunos oriundos das camadas populares no ensino superior e no mercado de trabalho.

É fundamental que os governos municipal e estadual invistam em mecanismos para mensurar de maneira realista esse novo cenário educacional, tais como a aplicação de avaliações diagnósticas internas e externas e o desenvolvimento de pesquisas, em parceria com universidades, para compreendermos a atual realidade socioeconômica vivenciada pelos alunos.

Ao mesmo tempo, é muito importante que se desenvolvam estratégias para superarmos de maneira efetiva esse difícil panorama. Seja no que diz respeito ao desenvolvimento de projetos pedagógicos, por parte dos profissionais da educação, que visem atender de modo especial os estudantes em situação de desfasagem. Seja no que se refere à elaboração de políticas públicas, por parte do Município e do Estado, que almejem sanar ou ao menos reduzir significativamente os problemas enfrentados por alunos e professores nas redes públicas de ensino, tendo como foco não apenas o cenário escolar intramuros, mas também as desigualdades sociais que tanto impactam na qualidade do ensino público.

* Este artigo foi elaborado em novembro de 2021, quando a rede municipal se encontrava em modalidade de ensino híbrido. Em 2022, todas as escolas retornaram ao regime presencial.

Marcelo Felício

Graduado em História pela UFV, Mestre e Doutorando em Educação pela UFOP, professor de História da rede estadual, ministrando aulas no Colégio Polivalente.

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